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ESTE SITE PROCURA REUNIR AS PRINCIPAIS OBRAS QUE INFLUENCIARAM O PENSAMENTO CONSERVADOR NA HISTÓRIA, E AS QUE, ESCRITAS RECENTEMENTE, TRATAM DO PRESENTE À LUZ DAQUELA TRADIÇÃO. 

No Que Acreditamos…

“Qualquer conservador instruído é relutante em condensar profundos e intricados sistemas intelectuais em poucas frases pretensiosas; ele prefere deixar essa técnica ao entusiasmo dos radicais. O conservadorismo não é um corpo dogmático fixo e imutável; os conservadores herdaram de Burke um talento para re-expressar suas convicções de forma a adequá-las ao seu tempo. Como uma premissa de trabalho, contudo, pode-se observar aqui que a essência do conservadorismo social é a preservação das antigas tradições morais da humanidade. Os conservadores respeitam a sabedoria de seus ancestrais (essa frase era de Strafford e Hooker, antes de Burke iluminá-la); eles duvidam de alterações em grande escala. Eles consideram a sociedade uma realidade espiritual, possuidora de uma vida eterna, mas também de uma delicada constituição: ela não pode ser desmontada e depois montada, como se fosse uma máquina. ‘O que é o conservadorismo?’ Perguntou uma vez Abraham Lincoln: ‘Não é a aderência ao antigo e ao experimentado, em contraposição ao recente e ao não testado?’ O conservador deve assumir o papel de guardião da ordem, da liberdade e da justiça, lutando pela restauração e pela preservação das normas que informam as verdades acerca da natureza humana e da organização social.” Russell Kirk

No livro The Conservative Mind, Russell Kirk elenca os chamados “seis cânones do pensamento conservador”, que caracterizam a doutrina e são assim expostos:

1. A crença em uma ordem transcendente, ou corpo de leis naturais que rege a sociedade, bem como a consciência. Os problemas políticos, no fundo, são problemas religiosos e morais. Uma racionalidade limitada, aquilo que Coleridge chamou de compreensão, não pode, por si só, satisfazer as necessidades humanas. “Todo tory é um realista”, diz Keith Feiling: “sabe que existem grandes forças nos céus e na terra que a filosofia humana não pode sondar ou perscrutar”. A verdadeira política é a arte de compreender e aplicar a justiça que deve triunfar em uma comunidade de almas.

2. Pendor pela prolífera variedade e mistério da existência humana, como algo oposto à uniformidade limitada, ao igualitarismo e aos propósitos utilitários dos sistemas mais radicais; os conservadores resistem ao que Robert Graves chama de “logicismo” na sociedade. Esse juízo prévio é chamado de “o conservadorismo da satisfação” – um senso de que vale a pena viver, e segundo Walter Bagehot, “a fonte apropriada de um conservadorismo vivaz”.

3. Convicção de que a sociedade civilizada requer ordens e classes, em oposição à noção de uma “sociedade sem classes”. Com razão, os conservadores foram chamados, muitas vezes, de “partido da ordem”. Caso as distinções naturais entre os homens desapareçam, as oligarquias preencherão o vácuo. A igualdade suprema no Julgamento de Deus e a igualdade perante os tribunais de justiça são reconhecidos pelos conservadores, mas a igualdade de condições, creem, significa igualdade na servidão e no tédio.

4. Certeza de que propriedade e liberdade estão intimamente relacionadas: Separai a propriedade da posse privada e o Leviatã se tornará o mestre absoluto. Igualdade econômica, sustentam, não é progresso econômico.

5. Fé no uso consagrado e desconfiança de “sofistas, calculistas e economistas” que querem reconstruir a sociedade com base em projetos abstratos. O costume, a convenção e os usos consagrados são freios tanto ao impulso anárquico do homem quanto à avidez do inovador por poder.

6. Reconhecimento de que mudança pode não ser uma reforma salutar: a inovação precipitada pode ser uma voraz conflagração em vez de uma tocha do progresso. A sociedade deve modificar-se, visto que a mudança prudente é o meio da preservação, mas o estadista deve levar em conta a Providência, e a principal virtude do político, segundo Platão e Edmund Burke, é a prudência.

Ao buscar uma renovação do entendimento das ordens moral e social, sugerindo meios adequados para preservar as “coisas permanentes” na luta contra a ideologia, Russel Kirk elencou, no livro A Program for Conservatives, uma série de dez problemas que devem ser enfrentados pelos conservadores, a saber:

1. O problema da mente, ou de como proteger o intelecto da esterilidade e da uniformidade da sociedade de massa.

2. O problema do coração, ou como ressuscitar as aspirações do espírito e os ditames da consciência numa época que foi tragada há tanto tempo por horrores.

3, O problema do tédio, ou como nossa sociedade industrializada e padronizada pode oferecer um significado novo para pessoas verdadeiramente humanas.

4. O problema da comunidade, ou como o coletivismo pode ser evitado pela restauração da verdadeira comunidade.

5. O problema da justiça social, ou como evitar que a inveja e a avareza ponham o homem contra seu semelhante.

6. O problema do querer, ou como satisfazer as justas aspirações e repudiar os desejos injustos.

7. O problema da ordem, ou como variedade e complexidade devem ser preservadas em nosso meio.

8- O problema do poder, ou como a força posta em nossas mãos pode ser conduzida pela reta razão.

9- O problema da lealdade, ou como ensinar aos homens a amar o país, os antepassados e a posteridade.

10. O problema da tradição, ou como, nestes dias em que o Turbilhão parece reinar, a continuidade poderá unir geração a geração.

Seguindo os ensinamentos de Edmund Burke, o programa conservador apresentado por Russel Kirk reconhece que “um Estado sem meios de empreender alguma mudança está sem os meios para se conservar”, ao mesmo tempo em que ecoa os seguintes versos de Robert Frost (1874-1963): “A maioria das mudanças que cremos ver na vida / É devida ao favor e desfavor de verdades”. A aceitação de reformas saudáveis como meio de preservação e o reconhecimento de que muitas das aparentes mudanças se dão pela aceitação ou negação da verdade são fatores decisivos para entendermos que o conservadorismo kirkeano não é uma proposta reacionária que se volta contra toda e qualquer alteração na cultura ou na sociedade, nem uma defesa do status quo. A proposta conservadora de Kirk é um conjunto de conselhos prudenciais que nos alerta para os riscos de desconsiderarmos totalmente os valores e costumes testados historicamente pela tradição em nome da arrogância racionalista de erigir de uma nova ordem social a partir dos caprichos humanos. A noção de tradição defendida pelo pensamento kirkeano pode ser compreendida melhor pela seguinte definição do literato T. S. Eliot:

Tradição não é única, ou mesmo primeiramente, a manutenção de certas crenças dogmáticas; essas crenças vieram a ganhar forma vívida no decorrer da formação de uma tradição. O que chamo de tradição abrange todas aquelas ações usuais, hábitos e costumes, que vão do rito religioso mais significativo ao nosso modo convencional de saudar um estranho, que representam os laços de sangue de um “mesmo povo que vive num mesmo lugar”. Encerra muito do que pode ser chamado de tabu – tal palavra ser utilizada em nossa época em um sentido exclusivamente depreciativo é, para mim, uma curiosidade de algum relevo. Tornamo-nos conscientes desses detalhes, ou conscientes de sua importância, geralmente, só depois de terem caído em desuso, como tomamos ciência das folhas de uma árvore quando o vento de outono começa a fazê-las cair quando cada uma delas já perdera a vida.