A Universidade em Questão – Georges Gusdorf

A Universidade em Questão - Georges GusdorfTudo depende da idéia que fazemos da natureza e das funções da universidade. Se jamais pensamos em nos perguntar por que ela está aí, como é e o que ela representa, podemos exigir dela qualquer coisa. Faremos dela uma espécie de grande supermercado da cultura, onde cada um irá procurar o menor preço, o menor esforço, aquilo de que tem necessidade, sem se preocupar com as particularidades dessa instituição. E lamento dizer: uma universidade das massas é uma contradição por definição, e uma desonestidade intelectual. Toda essa imensa agitação presente diz respeito a preocupações puramente quantitativas. Todas as dificuldades são expostas, para depois serem resolvidas, ao menos no papel, em termos estatísticos ― como se se tratasse de uma questão técnica análoga à de como resolver o fluxo de passageiros no metrô em horário de pico. Os usuários das faculdades solicitam ― aparentemente com toda a razão ― um mínimo de espaço vital em termos de metros quadrados; pretendem arrancar do Estado-patrão casa e comida, assim como ajudas financeiras e bolsas de estudo cada vez mais substanciosas. O Estado, do seu lado, necessita de um número cada vez maior de engenheiros, técnicos e cientistas. Assim, as verdadeiras perguntas jamais são feitas, ou seja, aquelas que dizem respeito à própria natureza e vocação do ensino superior.

Sobre o autor

GEORGES GUSDORF, nascido em 1912 perto de Bordéus, foi um filósofo e epistemólogo francês, oriundo de uma família judia originária da Alemanha. Faleceu em 17 de Outubro de 2000, com 88 anos. Georges Gusdorf sofreu fortes influências de Kierkegaard e do teólogo protestante suíço Karl Barth. Aluno de Gaston Bachelard na Escola normal Superior (ENS) de Paris, também estudou na Sorbonne sob a direção de Léon Brunschvicg, durante os anos 30, a mesma época de André Lalande e Émile Bréhier. No decorrer da II Guerra Mundial, esteve num campo de prisioneiros entre 1940 e 1945. Este cativeiro fez com que se viesse a interessar por um tema pouco popular entre os filósofos: a autobiografia. Depois da guerra, foi nomeado professor na Universidade de Estrasburgo, ocupando a cadeira de filosofia geral e de lógica. Até então tinha só publicado uma tese, La Découverte de soi, matriz dos seus futuros trabalhos sobre a memória e redigida no decurso do seu longo cativeiro em Lübeck, durante a II Guerra. Nos anos 50, regressa ao ENS, em preparação da agregação de Filosofia. Vem a suceder a Merleau-Ponty, e será mestre de Althusser. De 1966 à 1988, publica (Payot) catorze volumes de uma vasta investigação enciclopedista, Les Sciences humaines et la Pensée occidentale. Em 1968, indignado pela revolta estudantil, exila-se na universidade pontifical do Quebeque, mas regressa a Estrasburgo assim que regressa a calma. Georges Gusdorf afirma ter mesmo de alguma forma previsto esta explosão, na sua obra L’Université en question, lançada em 1964.

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